Investir em auditoria interna e em novas tecnologias para coibir o crime corporativo

Geert Aalbers e Fabio Mendes*

A Operação Lava Jato e a Lei Anticorrupção intensificaram a necessidade de as empresas fortalecerem mecanismos de controle interno para prevenir a materialização de riscos de fraude e de conformidade, que são responsáveis por reduzirem as receitas anuais das empresas em até 5%, segundo dado da Association of Certified Fraud Examiners (ACFE).

Acionistas e executivos estão cada vez mais pressionados diante da sofisticação dos fraudadores e do fortalecimento de órgãos fiscalizadores para combater crimes corporativos. A saída é investir cada vez mais em uma gestão eficaz dos seus riscos para prevenir e detectar a ocorrência de fraudes.

As empresas precisam adequar suas estruturas e seus mecanismos de defesa para mitigar risco de fraude. A auditoria interna – considerada a terceira linha de defesa– precisa continuar evoluindo na sua habilidade de identificar risco ou ocorrência de fraude, exercendo seu papel com responsabilidade e independência na realização de investigações internas bem-sucedidas.

Investir na aquisição de novas tecnologias para análises de dados (“data analytics”) une investigadores de fraudes corporativas, gestores de compliance e auditores internos, e representa uma mudança de paradigma. O objetivo passa a ser a detecção tempestiva da fraude e a redução da probabilidade e do impacto que esta representa. Ou seja, a prevenção ajuda a reduzir custos com as investigações, perdas financeiras com pagamento de multas, danos à imagem e reputação da empresa e até a materialização de risco estratégico.

Segundo a ACFE, as organizações que não possuíam controles internos voltados para a prevenção de fraude, sofreram em média, duas vezes mais perdas quando comparadas com empresas que possuíam programas antifraude, tais como o monitoramento, análise de dados, auditorias internas com detecção de risco de fraude/conformidade e auditorias investigativas eficazes para atender os canais de denúncia.

O uso da tecnologia para detectar fraudes e apoiar nos programas de auditoria interna, além de reduzir as perdas tem a capacidade de gerar retornos expressivos. Uma instituição financeira recentemente implementou uma solução de análise de dados para monitorar e prevenir fraudes. A solução agrega, analisa e permite a visualização dos dados de sistemas da empresa, o que melhorou significativamente a eficiência e eficácia de sua equipe de investigação de fraudes e auditorias internas mais robustas.

Esta solução inteligente permitiu que a equipe mudasse a forma de “combater ilícitos”, passando a atuar de forma preventiva de forma assertiva. O retorno sobre investimento realizado com a implementação desta solução foi acima de 1.000%. Isso mostra que perdas causadas por fraude são evitáveis e mitiga risco de imagem.

Atuar de forma preventiva tem uma série de ganhos: melhora identificação de potenciais incidentes gerados por fraudes, elimina tempo gasto com ocorrências não fraudulentas, prioriza o foco das investigações e incrementa o processo de avaliação e tomada de decisões.

Por tudo isso, investir de forma preventiva contra fraude é mitigar despesas que vão muito além dos custos diretos gerados pelo próprio ilícito. Quem se previne contra esse tipo de crime não corre o risco de ter sua reputação afetada.

Em uma era em que a lealdade do consumidor pode mudar em 140 caracteres, danos reputacionais podem ser desastrosos.

Estudo feito pela Universidade de Nevada, em 2014, e pela Universidade Friedrich-Alexander (2015), identificaram que empresas envolvidas em fraudes implicando seus altos executivos poderiam sofrer uma queda de 30% no preço das suas ações, além da perda causada pelo ato ilícito.

É preciso investir em tecnologias de ponta para realizar análise de dados, auxiliar em investigações internas, e aumentar a eficacia do programa de compliance mais efetivo. É preciso dar espaço, independência, liberdade e autonomia para a auditoria interna para ela se fortalecer e se aprimorar, visando reduzir a probabilidade e impacto financeiro, reputacional e gerencial dos atos ilícitos nas empresas.

Segundo Normas Internacionais (IPPF) IIA Global, a atividade de auditoria interna deve avaliar a eficácia e contribuir para a melhoria dos processos de gerenciamento de riscos, incluindo avaliar potencial ocorrência de fraude. A auditoria interna precisa considerar no seu plano anual de auditoria trabalhos que possibilite identificar “risco de fraude, contemplando técnicas de analise de dados para tornar as análises mais abrangentes e eficazes.

Para isso, faz-se necessário ter profissionais especializados e aplicabilidade de metodologias robustas para reduzir ao máximo a “probabilidade de não identificar riscos ou ocorrências de fraudes”, pois auditorias “tradicionais” não são mais eficientes e não possibilita identificar fraudes com “modus operandi cada vez mais sofisticado”.

A Lava Jato tem vários legados. Combater corrupção, fortalecer a democracia e criar uma sensação de que o cidadão tem poder, mecanismos e capacidade de agir para coibir fraudes e outros ilicitos. Combate ao crime não é despesa, é um investimento em prol de um país melhor, mais justo, ético e igualitário para toda nação.

*Geert Aalbers, senior partner Control Risks; Fabio Mendes, head de Auditoria Interna do SBT

FONTE: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/investir-em-auditoria-interna-e-em-novas-tecnologias-para-coibir-o-crime-corporativo/

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