[AUTORAL] O IMPACTO DA COVID-19 E A DISRUPTURA DE PADRÕES NA AUDITORIA

covid ai

Cotidianamente, muitos de nós andamos por trilhos, quase sempre fixos, daquilo que estabelecemos em nossos planos. Ao final de cada ano, como de praxe nas auditorias, traçamos objetivos, analisamos padrões, avaliamos riscos e formalizamos o que chamo de “aperto de mãos” entre Departamentos de Auditoria Interna e Conselhos ou Comitês de Auditoria. Nasce o plano anual, nosso guia para o período subsequente.

Toda essa idealização nos traz uma sensação de controle e estabilidade, que é o reflexo de agirmos como se fôssemos capazes de prever o curso da história. Por vezes, infelizmente, seguimos com essa falsa sensação, como robôs dotados de uma programação fixa, imutável e totalmente alheia aos desvios que certamente serão necessários.

Foi nesse contexto que 2020 chegou e nos arrastou de volta para nossa limitada condição humana. Fomos impactados pela materialização de um “cisne negro”, um verdadeiro choque de realidade veio para nos lembrar que, mesmo amparados por metodologia, planejamento e orçamento, tudo pode mudar.

O cenário criado pela pandemia da Covid-19, os seus reflexos nas mais diversas esferas e a velocidade com que todas as rotinas tiveram que ser adaptadas, trouxe à tona um forte alerta a chefes executivos de Auditoria (CAEs) e a times de auditores: planos anuais NÃO são imutáveis!

Na maioria das vezes, pela tendência que temos de fugir do novo, somente consideramos mudar quando a transformação deixa de ser opção e passa a ser necessidade. Há cerca de trinta anos, as auditorias eram basicamente focadas na análise operacional de atividades financeiras e administrativas, e existia pouco ou nenhum recurso tecnológico como auxílio. Foi quando a internet, ainda embrionária, iniciando uma revolução nas empresas e nas interações sociais. A tecnologia, até então vista com muita resistência, passava a fazer parte do dia a dia das corporações, e aquele frio na barriga, gerado pelo novo e repentino, precisou ser encarado.

Assim como a internet, muitos outros eventos inesperados transformaram o mundo. E a pandemia de 2020 será o próximo (atual). Por esse motivo, precisamos entender que não serão apenas nossos planos, baseados em análise de padrões e avaliação de riscos, que irão garantir a sustentabilidade das auditorias. O cenário atual nos alerta para a necessidade de uma busca incessante pela versatilidade em nossa profissão, de modo que consigamos ser resilientes agregadores de valor, mesmo em condições não favoráveis.

Precisamos entender que a resistência ao novo é um mecanismo implícito da defesa humana, e ter essa compreensão é importante para que não estejamos, cegamente, indo de encontro às necessidades que surgem ao nosso redor. Pois, muitas vezes, será justamente a mudança gerada pelo novo que nos tonará aptos a encarar o inesperado, ainda que seja facilitando as adaptações necessárias.

A dinâmica do mundo atual pede que nossa independência extrapole a questão hierárquica, já inerente à auditoria. Nossa independência também deve estar na capacidade de utilização dos recursos, ferramentas e tecnologias que permeiam os negócios, além de possuirmos uma mentalidade renovada e pronta para superar as barreiras que nos definem. Mesmo confinados, devemos ter habilidades comportamentais e técnicas para prosseguir atentos a nossa missão de aumentar e proteger o valor organizacional por meio de avaliação, assessoria e conhecimento, conforme preconizado no International Professional Practices Framework – IPPF (em português: Estrutura Internacional de Práticas Profissionais).

Neste momento, fica ainda mais claro que ter desenvolvido competências para trabalhos com auditoria contínua e análise de dados (data analytics), somada a possibilidade de conexões remotas a sistemas e bancos de dados, possibilitou ou facilitou a continuidade de muitos projetos de auditoria no mundo. Isso era inimaginável trinta anos atrás. Que bom que mudamos e evoluímos. Mas não podemos parar!

Quando essa crise passar, uma avaliação dos impactos gerados nas atividades de auditoria interna deverá ser realizada. Se constatada uma total estagnação, ações precisarão ser elencadas para que gerem mudanças e transformações. Porém, se houver continuidade na entrega de valor para os negócios, mesmo frente à necessidade de ajustes e do não cumprimento pleno de um plano anual, teremos uma excelente resposta. Nesse caso, avalia-se o que pode ser melhorado, pois sempre existem oportunidades que somente são observadas em situações como essa.

A experiência vivida já neste ano precisa nos elevar a um novo patamar de vida pessoal, profissional e corporativa. Aquela falsa sensação de controle e estabilidade, que nos fizeram seguir por trilhos fixos com destinos “certos”, deverá abrir espaço para transformação e evolução, sempre considerando as possibilidades e necessidades de mudança.

Texto opinativo publicado na 17ª edição do Auditor Interno Magazine – IIA Brasil

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Elvis Romão é mantenedor do site http://www.elvisromao.com.br, onde publica artigos e matérias relacionadas à Auditoria de TI, Compliance Digital, Perícia Informática e Segurança da Informação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s